Entrevista de Eduardo Favaretto para a Folha de S.Paulo em 21/01/2008
  

 Web 3.0 e o seu uso em buscadores
publicado em: 20/02/2008 às 15h35

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A jornalista Daniela Arrais da Folha de São Paulo (Caderno de Informática), entrevistou em 21/01/2008 o empresário, Eduardo Favaretto, especialista em Internet, diretor fundador do iBUSCAS, gestor de aplicações e recursos on-line para Internet.
Daniela: Eu tô fazendo uma matéria sobre buscadores, e tem uma das... são várias “materinhas” e tem uma delas que eu falo um pouco sobre Web 3.0?

Favaretto: Perfeito.

Daniela: Eu queria conversar com você um pouco pra saber o que é essa Web 3.0, para ter uma aspas na matéria, sabe... Eu queria saber de você o que a é Web 3.0? E qual o impacto da chegada dessa Web 3.0 para as ferramentas de busca?

Favaretto: Daniela tem vários caminhos aí para a gente seguir sobre Web 3.0. Não existe uma definição única sobre o assunto. Uma situação é fato... que a Web 3.0 é um grupo de tecnologia, são várias tecnologias, na realidade, que vão chegar a algum determinado momento numa convergência e transformar padrões atuais em novos padrões. Então, assim, se a gente puder extrapolar um pouquinho mais, o que poderá vir a ser Web 3.0, numa "futurologia" vamos dizer assim, tem três definições que eu poderia te passar e mais uma quarta, que às vezes o mercado cita.

Uma delas seria, por exemplo, a Internet móvel agrupando situações, que você pode ler, gravar e programar informações na Internet, você mesmo como um usuário final. E até o próprio usuário nessa hora desenvolveria suas ferramentas de software, de uso em si. E esse conteúdo ficaria ali, acessível para terceiros. Isso é uma situação que vem já acontecendo em parte com a Web 2.0, com APIs sendo liberadas, algumas ferramentas trocando informações de uma forma social. Enfim, esse ai é um caminho, é uma dessas tecnologias que eu citei que vai agrupar e provavelmente chegar na Web 3.0.

Uma segunda situação seria o que, às vezes, especialistas dizem dos portais e de sites 3Ds, ou seja, às vezes, um mundo virtual chegando a esse ponto da Web 3.0. Então aí um exemplo, seria o Second Life o que se usa nesse sentido. E aí, ainda acredito, que junto num mundo 3D, você poderia ter conexões com pessoas e comunidades em si.

E a terceira, que eu acredito que é a mais rica em detalhes e talvez em informações, vem a ser a própria Web Semântica que o próprio Tim Beners-Lee constantemente cita e enfatiza... e o ponto principal da Semântica, nessa parte relacionada a Web, seria a interoperabilidade de dados. Então os dados nessa hora, vão estar sendo efetivamente... é... vão “subir pra Internet” [disponibilizados] .. vão sair simplesmente de bases, às vezes, que não tem acesso e vão chegar até lá. De uma forma geral essas são as três [definições].

Existe uma quarta que é o que, às vezes, aparece no mercado, um comentário de que... "o pessoal vai aguardar o que o Tim O’Reilly, da O’Reilly Media, disser, que aí vai ser Web 3.0..." - essa é parte da brincadeira da coisa...[risos]

Mas assim, seu pensar na Web 3, como você disse, em termos de buscador, indo por este outro caminho... é um caminho muito rico, principalmente, ao meu entender... a "palavra chave" em si, ela vai passar a ser substituída por um outro modelo de consulta em si. "Por sentenças", ou até mesmo cruzamento de dados. Então, ao meu entender essa situação vai acontecer em breve... já no decorrer talvez do próximo ano, deve existir buscadores com algum conceito embutido disso.

Imagina um caso prático. Acho que é mais fácil que falar de muitas situações atreladas ai, ao que dizem, é [exemplificar] situações práticas...
Por exemplo, eu tenho um compromisso para seguir pro Rio de Janeiro. Então eu quero achar um hotel no Rio de Janeiro. Hoje, se eu colocar "hotel Rio de Janeiro" [em buscadores], me aparece um monte de listagens mais absurdas possíveis. Eu vou demorar bastante para chegar a alguma conclusão disso. Com a Semantic Web você vai colocar sentenças. Então, você vai especificar bastante isso. Então, você vai falar: "eu quero um hotel no Rio de Janeiro, próximo do meu endereço tal, que o custo da diária seja abaixo de seus R$ 200, por exemplo, que tenha uma conexão Web no quarto". Então, a partir daí, esse dado vai vir para mim de uma forma muito mais refinada e limpa. Então, essa interoperabilidade desses dados todos, onde eles vão estar, como eles vão estar relacionados, ao meu entender, essa é minha aposta.
Na Web 3.0 seria muito mais associada à semântica, mas com... evidente, todas as outras tecnologias que estão emergindo no momento, interagindo também.
 
Daniela: Você podia me explicar, um pouco, como esses buscadores vão agregar informações, aquela história de em vez de eles procurarem por algumas "palavras chaves", eles vão procurar o "sentido" mesmo do que o usuário esta procurando?

Favaretto: Perfeito Daniela. O assunto é bem complexo. Mas, em termos resumidos, você tendo sentenças, como eu te disse daquele exemplo clássico da “busca do hotel”, você fornece diversos tipos de parâmetros e esses parâmetros vão interagir com uma determinada base de informações, que está “preparada para responder a esses parâmetros”. E a partir dalí, com isso, eles podem fazer uma determinada “viagem” entre os dados e entre eles mesmos, associar uma coisa com a outra.

Então, às vezes, há pessoa, ou existem pessoas que definem a Web Semântica muito basicamente, como relacionamento de símbolos, no significado em si. Na realidade, o ponto principal é a disponibilidade destes dados, de tal forma, que se consiga trabalhar com eles... e que faz isso associar os dados, criar um determinado "reconhecimento de discurso humano", vamos dizer assim... ou até "padrões", é uma parte de "inteligência artificial" em si.
Então, não existe uma solução extremamente intuitiva, simples, atualmente para você colocar uma parte prática de Web Semântica "no ar". Então, existem várias formas de chegar até lá, nesse sentido, desde que essas bases estejam razoavelmente preparadas, tá...
Então, esse esforço, que ao meu entender já tem data de inicio, que foi a partir do ano passado, quando começaram a ter trabalhos a respeito do assunto, vão começar a colher efetivamente resultados a partir do ano que vêm... eu não sei se consegui responder sua pergunta...

Daniela: Acho que sim, é porque em busca dessa linguagem que faça sentido para a máquina, o desafio é...

Favaretto: Esse é o grande desafio... E existem fases a serem “queimadas” para que isso aconteça. E principalmente essa situação de "mostrar os dados", tá... E isso, atualmente, hoje, a Web, ela tem um pouco mais de 3 a 4% disso disponível. Existe uma "Web Profunda" que se conhece como "Deep Web" e se fala muito nesse termo também, que esses dados não estão visíveis. E... principalmente a integração desses dados "escondidos" é que seria o grande trunfo, no momento que você começa a relacionar sentenças, e parte dessa base de dados disponível a ser "associada com essas sentenças".

Então, uma situação é a "reutilização desses dados", uma situação que pode aparecer... é totalmente inesperada, ninguém pode imaginar o tão quanto profundo é isso, até mesmo, para coisas boas como coisas ruins.
Então, ai surgem desde a situação dessa grande dificuldade dos dados estarem desunidos, nesses formatos difíceis, diferentes, todo uma “colchinha de retalhos”, vamos dizer assim, até a questão da privacidade, que ela vai ser extremamente crítica nesse instante, nesse momento seguinte, principalmente com esses dados podendo ser utilizados aí... fartamente, por um lado “não agradável”, vamos imaginar com esse tipo de termo.
Enfim, um “modelo exato” que você simplesmente coloque algumas informações e já obtenha tudo isso em mãos, ainda não tem esse “fechamento”, não existe tecnologia "preparadíssima" para que isso aconteça... e principalmente para integrar todas as bases de dados existentes.
Mas, o despertar desse tipo de situação já tem trabalhos acontecendo, principalmente no MIT, com Tim Beners-Lee nesse sentido e alguns outros pesquisadores que estão também relacionados ao assunto.


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